15.2.15

Carta à quem não pôde escolher - por Karen Farias.


Com o início da campanha contra e à favor da descriminalização do aborto nas redes sociais, me vi obrigada a dar um break na sequência de postagens da gente na praia e me posicionar também. Tive a ideia de selecionar algumas convidadas, escolhidas à dedo, para escreverem, cada uma, um texto colocando pra fora o que elas pensam sobre o aborto. O meu texto e o meu posicionamento apresentarei nesta série que se inicia, agora, com o texto da minha amiga Karen Farias, mãe e Jornalista.


Carta à quem não pôde escolher - por Karen Farias  
         
             "Desculpa filho, eu escolhi à mim. 
            Sabe filho, isso nada tem a ver com você. Todo esse assunto diz respeito tão somente á mim e às minhas escolhas. E eu escolhi à mim e não você. Mas não se ofenda. Se você tivesse tido a chance, tenho certeza que entenderia. Afinal de contas, tantas coisas estavam envolvidas naquela escolha. Era o meu corpo, meus sonhos, meus projetos, minhas incapacidades, meus medos, minhas frustrações, minhas convicções, os planos que tinha para o futuro, a ideia que eu tinha de família, a ideia que eu tinha daquele cara, daquela transa – foi só um descuido, um único deslize -  … Eram tantas coisas na minha mente que mal conseguia pensar. Queria resolver, rápido, instantaneamente se possível, não tinha tempo de refletir, de duvidar de mim mesma, de acreditar em mim mesma, de ouvir outras vozes, aliás tinha raiva delas, talvez ainda tenha um pouco. Poxa! Era eu a mais importante ali, eu que teria que arcar com qualquer decisão. Então, escolhi, à mim.
            Se me vejo como uma criminosa, como o Estado insiste em afirmar e rotular? Claro que não! Eu sou vítima! Vítima do sistema machista opressor, vítima da cultura, vítima do momento de descuido, vítima de uma transa sem compromisso, vítima ... de mim mesma. E esse Estado que insiste em legislar? Ah sobre ele, se tivéssemos tido a chance, íamos conversar muito sobre esse Estado filho. Se pudéssemos, conversaríamos sobre como o sistema legislativo desse país precisa ser repensado, como as leis precisam ser melhor discutidas. E o sistema penitenciário, então? Se tivéssemos tido a chance de conversar. Mas escolhi não tê-la.
            E, por favor, não me julgue mal. Não sou assim tão egoísta como pode parecer. Ao contrário, diria até, que sou uma pessoa socialmente ativa. Milito à favor dos menos favorecidos, estou pronta para dar a minha opinião quando o assunto são as minorias. Ah, filho, se você tivesse tido a chance veria como esse país anda tratando os índios, os negros. Que terror! … Sim eu me preocupo com eles. Sei que parece paradoxal, mas é que quando eu realmente precisei decidir … Eu tinha que escolher! Escolhi à mim e não você.
            Às vezes, paro e fico pensando como você seria, se eu tivesse me arriscado, se tivesse te dado uma chance, se tivesse escolhido você, ao invés de mim. Como seriam seus olhos? Como seria seu jeito? Quanto de mim teria em você, quanto dele e quanto de você mesmo? Coisa boba de se pensar, né? Na verdade, nem sei se você existiu um dia mesmo ou se era apenas um amontoado de células sendo geradas dentro de mim. Não tive tempo para pensar. Escolhi à mim. E olha, se tivesse sido diferente, pode até ser que não tivesse sido nada legal. É provável que viveríamos restrições financeiras, sociais e até emocionais, e se restringir não é legal. Tudo bem que poderíamos ter curtido as coisas simples também, mas nem sempre o simples é legal, apesar de, às vezes, a gente dizer que sim para posar de bacana pra galera. Enfim, essa foi a melhor escolha pra mim.
            Bem, estou escrevendo só para por um fim definitivo em tudo isso. Pra dizer que seria muito mais fácil resolver esse assunto de fora pra dentro, a começar pela descriminalização do mesmo e pela não culpabilidade de mim. Estou cansada de me sentir culpada, não sei como tirar isso de dentro de mim. Você já se foi, oras! Mas ainda parece tão dentro de mim … Mas por quê? Se eu escolhi à mim!"
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Ser contra o aborto não é simplesmente não querer problematizar o assunto. Ser contra o aborto não é aceitar que a legislação abrange o assunto da melhor forma possível. Ser contra o aborto não é não compreender. Ser contra o aborto é ser contra tirar de alguém todas as infinitas possibilidades que é a vida. 
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Karen Farias, tem 29 anos e vive no Hawaii. É mulher, mãe e Jornalista. Apaixonada por escrever, tem aprendido com a maternidade a ser mais tolerante e mais amorosa, e com o tempo, que, às vezes, é preciso se expor para de fato se conhecer.


(karenfariasjornalista@gmail.com)


16.12.14

A primeira noite em casa.

Chegamos em casa!
Estava na hora.
Nossa primeira casa nessa aventura é, na verdade, um apartamento. Temporário apartamento.
Como eu já havia dito no post anterior, não fazia parte dos nossos planos sair de um apartamento na cidade grande e ir para outro na nova cidade, mas como diz o versículo: "O coração do homem faz planos, mas o Senhor lhe dirige os passos" (Provérbios 16:9). Cá estamos. 

Chegamos na cidade no dia 20 de Julho e, exatamente, 7 dias depois no apartamento. Juntamos nossas coisas, saímos da pousada e partimos para encarar nosso novo lar cheio de caixas, mas já limpo e sem todo aquele pó branco de construção. André deixou o quarto das crianças liberado pra gente dormir e o banheiro prontinho pra tomarmos banho. O básico que precisávamos pra passar pra próxima etapa.

Preparamos uma sopa com torradas, demos banho em todo mundo e sentamos pra comer. Tantos sentimentos, tantas impressões, tantas expectativas e curiosidades. Foi uma noite agitada. Parecia que não ia acabar. Forramos todo o chão do quarto das crianças com colchões e dormimos todos juntos. Foi um mini acampamento familiar, só que dentro de casa. Rs...


As crianças estavam empolgadas e felizes (pra "variar"). Nós estávamos exaustos (pra "variar"). Entenderam as aspas, né? Hehe.

Mesmo muito cansada, eu mal podia pregar os olhos pensando em tudo que tinha pra fazer no dia seguinte. Toda uma casa pra colocar em ordem, toda uma vida pra colocar em ordem. Estávamos recomeçando. Tudo novo de novo. Pra quem tem ou teve uma vida de mudanças como eu, sabe do que estou falando. Eu já me acostumei a me mudar e me acostumei a tal ponto que se passo 2 anos num lugar, no final desse segundo ano já estou agoniada querendo me mudar de novo. Me acostumei com as andanças. Mas mudar de cidade com 3 crianças pequenas é algo totalmente novo pra mim. Rs... Acho que tudo fica elevado à enésima potência.

Pra vocês terem uma ideia do que estou falando, estamos 5 meses à frente da noite desse post. Vocês nem imaginam quanta coisa aconteceu de lá pra cá. Tenho tentado me organizar pra contar tudo em tempo real, mas os acontecimentos correm mais rápido do que minha disponibilidade e quando vejo, lá se foi mais um mês e eu nem postei nada. Simplesmente, mal consigo sentar na frente do computador. Me sinto numa montanha-russa dia e noite, noite e dia. Não posso negar que tudo isso tem sido uma grande aventura. Às vezes, empolgante. Às vezes, estranha. Mas isso tudo vou contando no decorrer das postagens. Hoje era só pra contar da primeira noite em casa!

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21.10.14

Os primeiros dias.


O dia amanheceu lindo, mas frio. Como foi boa a sensação de amanhecer aqui! As crianças acordaram e logo correram pra rede na varanda. Eu ainda não estava acreditando. Aquilo tudo estava mesmo acontecendo de verdade. Acordar, abrir as portas que davam para aquela varanda e sentir aquele orvalho misturado com a maresia foi emocionante. Esse cheiro tinha sabor também. Era o sabor de um sonho se tornando realidade. Já chegamos até aqui! Passamos por uma mudança complicada com 3 crianças, fizemos uma longa viagem de carro, eu estava indo morar num apartamento que nem conhecia, mas aquilo tudo já era insignificante perto do que estava acontecendo.

Passamos 7 dias na pousada. Eu ficava com os 3 enquanto André ia e voltava do apartamento no qual, até então, eu nem havia entrado ainda. Sim, só André conhecia o apartamento por dentro. No dia que chegamos o vi por fora, mas só por fora. Passei esses 7 dias louca pra entrar lá, desencaixotar tudo e começar a arrumar nosso novo lar. Temporário lar, tudo bem, mas era nossa primeira moradia aqui! Era a primeira vez que morávamos todos juntos perto do mar.

Nosso plano não era sair de um apartamento e ir pra outro e sim ir para uma casa, mas como não encontramos nada adequado para as crianças, nossa decisão foi de ficar no apê até que encontrássemos uma casa ideal. Por um lado isso foi bom, pois como não conhecemos a cidade muito bem, esse tempo no apê nos permitirá escolher uma casa com calma. Poderemos conhecer bem os bairros e decidir onde será melhor pra nós. Tudo tem seu tempo certo debaixo do céu e nada é por acaso. Assim acreditamos.

Nossa rotina durante esses 7 dias foi basicamente a mesma: acordar, tomar café da manhã, André ir limpar o apê e eu ficar com as crianças na pousada. Ele voltava na hora do almoço pra nos levar pra um restaurante, me deixava na pousada com as crianças de novo e voltava para o apartamento. Foi uma longa espera pra mim. Uma semana pareceu sete. A espera é angustiante, ainda mais quando você sabe que há tanto a se fazer. Quando André chegava exausto à noite, era como se eu voltasse a respirar depois de um longo tempo em apneia.


Eu estava doida colocar todos os planos em prática. André trouxe umas fotos do interior do apê pra mim e eu passava o dia inteiro imaginando o quê ia ficar aonde. Que vontade de começar a nova vida logo!

No sétimo dia, ele finalmente havia acabado de lavar todo o apartamento - lavagem essa que incluiu todas as paredes que estavam cheias do pó branco da construção, as janelas e as portas. Tudo sem molhar aquele monte de caixas pelo chão. O trabalho consistia em colocar todas as caixas concentradas no quarto que seria meu e dele, ligar a água, a luz e comprar o botijão de gás. Assim, as crianças teriam o espaço do resto dos cômodos e nós poderíamos ir desencaixotando com calma.

Havia muita coisa a ser feita por lá, mas no sétimo dia, eu já não aguentava mais esperar na pousada. Eu queria ir pra casa!

Continua...

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