21.10.14

Os primeiros dias.


O dia amanheceu lindo, mas frio. Como foi boa a sensação de amanhecer aqui! As crianças acordaram e logo correram pra rede na varanda. Eu ainda não estava acreditando. Aquilo tudo estava mesmo acontecendo de verdade. Acordar, abrir as portas que davam para aquela varanda e sentir aquele orvalho misturado com a maresia foi emocionante. Esse cheiro tinha sabor também. Era o sabor de um sonho se tornando realidade. Já chegamos até aqui! Passamos por uma mudança complicada com 3 crianças, fizemos uma longa viagem de carro, eu estava indo morar num apartamento que nem conhecia, mas aquilo tudo já era insignificante perto do que estava acontecendo.

Passamos 7 dias na pousada. Eu ficava com os 3 enquanto André ia e voltava do apartamento no qual, até então, eu nem havia entrado ainda. Sim, só André conhecia o apartamento por dentro. No dia que chegamos o vi por fora, mas só por fora. Passei esses 7 dias louca pra entrar lá, desencaixotar tudo e começar a arrumar nosso novo lar. Temporário lar, tudo bem, mas era nossa primeira moradia aqui! Era a primeira vez que morávamos todos juntos perto do mar.

Nosso plano não era sair de um apartamento e ir pra outro e sim ir para uma casa, mas como não encontramos nada adequado para as crianças, nossa decisão foi de ficar no apê até que encontrássemos uma casa ideal. Por um lado isso foi bom, pois como não conhecemos a cidade muito bem, esse tempo no apê nos permitirá escolher uma casa com calma. Poderemos conhecer bem os bairros e decidir onde será melhor pra nós. Tudo tem seu tempo certo debaixo do céu e nada é por acaso. Assim acreditamos.

Nossa rotina durante esses 7 dias foi basicamente a mesma: acordar, tomar café da manhã, André ir limpar o apê e eu ficar com as crianças na pousada. Ele voltava na hora do almoço pra nos levar pra um restaurante, me deixava na pousada com as crianças de novo e voltava para o apartamento. Foi uma longa espera pra mim. Uma semana pareceu sete. A espera é angustiante, ainda mais quando você sabe que há tanto a se fazer. Quando André chegava exausto à noite, era como se eu voltasse a respirar depois de um longo tempo em apneia.


Eu estava doida colocar todos os planos em prática. André trouxe umas fotos do interior do apê pra mim e eu passava o dia inteiro imaginando o quê ia ficar aonde. Que vontade de começar a nova vida logo!

No sétimo dia, ele finalmente havia acabado de lavar todo o apartamento - lavagem essa que incluiu todas as paredes que estavam cheias do pó branco da construção, as janelas e as portas. Tudo sem molhar aquele monte de caixas pelo chão. O trabalho consistia em colocar todas as caixas concentradas no quarto que seria meu e dele, ligar a água, a luz e comprar o botijão de gás. Assim, as crianças teriam o espaço do resto dos cômodos e nós poderíamos ir desencaixotando com calma.

Havia muita coisa a ser feita por lá, mas no sétimo dia, eu já não aguentava mais esperar na pousada. Eu queria ir pra casa!

Continua...

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12.10.14

A chegada.

Ahhh... a tão esperada chegada! 
Nós mal podíamos acreditar! Finalmente chegamos!
A ficha demorou pra cair.

Estávamos vendo o mar de novo, depois de 1 ano e meio planejando nossa volta pra esse lugar. 

Estava tudo ali, bem na nossa frente, nos esperando. Tudo continuava igual ou mais bonito! O dia estava lindo! E a partir desse dia, veríamos o mar de novo, todos os dias! Como é bom batalhar por um sonho e alcançá-lo! O sabor dessa realização é quase indescritível e já estávamos sentindo-o.

Samuel e Maria queriam descer logo do carro. Todos nós queríamos. Paramos e André desceu com os dois.


Fiquei no carro com Cecília, pois o clima já estava bem frio, apesar do sol, e eu não queria que minha RN pegasse nenhuma rajada de vento, afinal, ela ainda estava se recuperando da bronquiolite. Chega de hospital!

André voltou contando que Maria estava perplexa diante do mar. Apesar de o já ter visto antes, era como se fosse a primeira vez, pois ela era pouquíssimo mais velha que Cecília quando estivemos aqui com ela.

Samuel estava radiante. Impressionado. Aliviado. Ele parecia estar cheio de planos.

Mas, apesar da vontade de ficar ali admirando aquela imensidão azul e ouvindo o barulho das ondas, tivemos que entrar logo no carro para encontrarmos com o caminhão da mudança que havia chegado 2 horas antes. Assim que chegamos, nossas caixas já estavam todas dentro do apartamento, pois o zelador do prédio havia agilizado 2 chapas para descarregar o caminhão pra gente. Que maravilha, né? Fizemos o pagamento para o dono do caminhão, para os chapas, e logo partimos para a pousada, onde passaríamos alguns dias, até que André conseguisse ligar a luz e a água do apartamento e até que conseguisse tirar todo o pó branco de lá de dentro, pois a obra do prédio havia sido recém finalizada.

Chegamos na pousada e a sensação era a de uma viagem ao túnel do tempo. Ficamos no mesmo quarto no qual havíamos nos hospedado quando viemos conhecer a cidade, 1 ano e meio atrás. Estava tudo igualzinho dentro do quarto, com exceção de uma luminária que ficava ao lado da cama de casal. Aquilo tudo parecia surreal. Estávamos de volta àquela cidade, naquele mesmo quarto, mas, desta vez, estávamos ali como moradores, não mais como turistas. Minha cabeça estava à mil!

Continuávamos extasiados com a beleza do lugar. Eu estava ali! No mesmo quarto, admirando aquela mesma paisagem do alto daquela mesma varanda, sentindo aquele mesmo cheiro de mar, curtindo aquela maresia na pele, só que com mais uma filha! Rs! Agora eram 3! Que alegria ter chegado bem com meus amores àquele paraíso!

Todo um futuro nos esperando. O desafio batendo na nossa porta todos os dias, a partir dali. O desafio de dar certo, de se encaixar, de se adaptar. O desafio de poder ficar, de nunca mais precisar partir desse lugar!

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4.10.14

A partida.


Depois de muitas idas e vindas, eis que o dia esperado finalmente chegou.
Malas prontas, lanches preparados, carro revisado, pneus trocados, ansiedade à milhões. Era hora de por o pé na estrada. Mas agora era de vez. Burocracias resolvidas, desligamentos feitos. Um novo rumo bem à nossa frente. Estávamos nós, com 3 crianças pequenas, incluindo uma recém-nascida, indo para uma cidade que só havíamos visitado uma vez e pela qual havíamos nos apaixonado. Estaríamos nós cometendo uma loucura? Ou estaríamos rumo à realização de um sonho? Estaríamos iludidos? Ou enxergando além?

Eu e André somos dois corajosos, sem dúvida! Temos peito. Sim, temos. Quando a gente quer alguma coisa, ninguém nos segura. Não ficamos só no blá blá blá, não. A gente faz acontecer. A gente realmente VIVE aquilo que a gente pensa, aquilo que a gente fala. E se isso não for ter peito, eu não sei o que que é. Alguns disseram que estávamos sendo irresponsáveis. Mas ao contrário do que muitos podem imaginar, fizemos um planejamento. E bem minucioso. Com data pra começar e com data pra terminar. Como eu disse neste post, temos 1 ano pra dar certo.



Com exceção da minha amiga Denise, todo mundo foi contra a nossa vinda pra cá. Disseram que a gente tava indo "prum mei di mato com 3 crianças. Fazer o quê?". Mas nós sabíamos muito bem o que estávamos fazendo. Estávamos largando toda uma vida padronizada e dentro dos "conformes" dos outros, da sociedade, de sei lá quem, pra, finalmente, ir viver a NOSSA vida, do jeito que A GENTE acha que uma vida deve ser. Estávamos dando uma chance pros nossos filhos. Uma chance de crescer perto da natureza, sem pressa, de aprender sobre o mar, de ser criança que sobe em árvore, que brinca com terra, de pé no chão. Uma vida que a gente estava começando a modelar, com as nossas próprias mãos! Sim, estávamos colocando o pé na estrada rumo à uma vida que consideramos uma vida de verdade! Cansamos de passar os dias desejando, aspirando e sonhando sem poder apalpar essa vida. Mergulhar nela. Ouvir o som dela. Degustar ela. A vida em si é uma só e estávamos cansados de vivê-la sem nos sentir vivos de fato. Quantas vezes chegamos a quase babar na frente da televisão assistindo os programas do Canal Off? Ah, o Canal Off... Fazia a gente sentir ainda mais saudade do mar! Que tortura! Precisávamos tomar uma atitude. E tinha chegado a nossa vez! Estávamos com tudo pronto! E estávamos sedentos para dar o melhor pros nossos filhos: uma vida mais leve, mais lenta, mais saborosa, mais simples, mais feliz! Uma vida longe das imposições de uma grande cidade, das obrigações de uma grande cidade, da loucura de uma grande cidade. Estávamos mais do que prontos. Estávamos eufóricos.
Não conseguimos nos despedir de ninguém. Parece mentira, mas nem do nosso vizinho do andar superior conseguimos nos despedir. Parece até que tinha que ser assim, de supetão, como tudo foi, desde o início. E era tanta gente pra se despedir! Nossa, quantos amigos! A gente não queria dar tchau. Até tentamos, mas não conseguimos. Foi tudo muito corrido, muito frenético.

Como nem tudo acontece do jeitinho que a gente quer e planeja, dessa vez também não foi diferente. Apesar do desejo de sair de um apê e ir direto pra uma casa com quintal, árvores e balanço, só conseguimos um outro apê. Mas, graças a Deus, bem maior. A cidade é turística, sendo assim, os imóveis para aluguel definitivo são quase um achado. Dentre todas as poucas opções que tínhamos, o apê, sem dúvida, foi a melhor. Entre 1 chalé minúsculo e escuro com escada íngreme, 1 casa tomada por cupins e mofo e 1 apê claro, ventilado e espaçoso, ficamos com o apê! Fora que é novinho e ninguém havia morado nele ainda.

Antes que nos lancem mil questionamentos, deixo bem claro que temos bem definida na nossa cabeça a diferença entre viver uma vida com simplicidade e viver uma vida sem o mínimo de conforto. Não somos radicais e nem vamos submeter nossos filhos à condições insalubres por conta de filosofias ou ideologias sem fim. Não é essa a nossa praia. Absolutamente. Pautamos a nossa vida pelo equilíbrio, pela moderação e pela prudência. Mesmo que façam qualquer tipo de julgamento a nosso respeito ou com respeito às nossas escolhas, nós sabemos que não somos dois inconsequentes. Aventureiros sim, mas inconsequentes, jamais.

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